FLEXIBILIDADE E LESÃO NO TORNOZELO DO BAILARINO
Sayonara Sosa Antunes
Especialista em dança PUCRS, Graduada em Educação Física, Coreógrafa de Teatro e
Professora de Dança. sayonick@hotmail.com
Poucos estudos tem sido publicados sobre a relação entre dança e lesão no
bailarino levando ao desconhecimento do mesmo no que diz respeito aos cuidados
necessários a serem tomados durante esta prática. A falta de informação por
parte dos bailarinos, sobre o seu próprio corpo, faz com que o número de lesões
seja cada vez maior, uma vez que muitos professores de dança apresentam-se
totalmente despreparados no sentido de orientar seus alunos em questões
anatômicas, cinesiológicas e fisiológicas, questões estas que estão diretamente
ligadas à prática da dança no que se refere ao rendimento técnico e o máximo de
segurança.
Observou-se durante a vivência entre bailarinos (iniciantes e experientes) com
hipermobilidade da articulação talocrural (tornozelo), a sistemática falta de
força dos mesmos e maior tendência à instabilidade articular em inversão na
realização do trabalho de pontas durante a prática da dança, ou seja, a
ocorrência de um desalinhamento do eixo vertical do tornozelo durante o trabalho
de pontas onde o dedo mínimo é projetado em direção ao solo. Partindo desta
observação fez-se necessária uma investigação mais aprofundada da presente
questão objetivando conferir se esta hipótese é verdadeira para então prevenir o
acontecimento de lesões.
Palazzi, Hernandez e Perez (1988) relatam que dança quando praticada com
dedicação objetivando a perfeição, pode ser comparada aos esportes de
competição, no que se refere ao número de horas praticadas diariamente. A partir
do relato destes autores podemos pensar em dança como uma atividade com grande
probabilidade de ocorrência de lesões pela alta exigência sofrida por alguns
segmentos corporais, onde podemos citar a articulação do tornozelo.
Autores como Minguez (1988), Palazzi, Hernandez e Torrens (1992), entre outros,
apontam a articulação do tornozelo como um dos segmentos onde acontece o maior
número de lesões em bailarinos. Ocorre que, alguns bailarinos são donos de uma
mobilidade articular acima da média, em que tem se observado uma possível
relação entre esta característica articular e uma falta de força local, podendo
ser este, um forte agravante no acontecimento de lesões. Segundo Minguez (1988),
um aumento da prevalência de hipermobilidade articular em bailarinos, os
predispõe a apresentar lesões ligamentares entre outras patologias; este autor
ainda cita que, dada a intensidade desta atividade, a hipermobilidade em
bailarinos pode ser considerada mais como uma desvantagem. A inter-relação entre
hiperlassidão articular e a dança é freqüentemente ponderada e debatida, ainda
que seu estudo científico seja bastante escasso.
Howse (1987) relata que, a partir de estudos com jovens bailarinos, concluiu-se
que os bailarinos hipermóveis apresentam maior propensão a sofrer lesão do que
aqueles sem hipermobilidade articular Em um bailarino com hipermobilidade
articular a força é extremamente importante no controle deste aumento de
mobilidade, que acompanha, com relativo equilíbrio, uma fraqueza muscular.
Infelizmente estes jovens bailarinos hipermóveis, podem apresentar grande
dificuldade em desenvolver força suficiente para controlar o aumento da
mobilidade articular.
Segundo Shafle, apud Hergenroeder (1988) a falta de força no pé e tornozelo do
bailarino pode resultar em entorses agudos do mesmo ou lesões por uso excessivo
destes. A flexão plantar sobre o solo (trabalho de pontas) é um movimento
articular de grande solicitação na maior parte das modalidades de dança. Este
movimento é na dança denominado relevé. Bordier (1985) cita que o relevé
executado em inversão é erro freqüente realizado pelo bailarino na prática da
dança.
Gangneire, Euler-Zigler Fournier, Commandre (1998) apontam que a lesão mais
comum no bailarino ocorre com freqüência em inversão do tornozelo. Distensões
podem ocorrer em qualquer ligamento do pé e tornozelo, porém o mais comum
envolve o complexo de ligamentos localizados lateralmente no tornozelo.
Reenstram (1999) concorda com os autores acima e explica que, a lesão ligamentar
lateral se dá tipicamente em flexão plantar em inversão, pois é a posição de
máximo estresse do Ligamento Tíbio Fibular Anterior (LTFA), este é o mais frágil
dos ligamentos laterais. Com o pé na posição anatômica, o LTFA corre paralelo ao
eixo do pé, quando este se encontra em flexão plantar sobre o solo (relevé), o
LTFA, corre paralelamente ao eixo da perna, ficando desta forma, mais suscetível
à lesão, uma vez que as torções ocorrem geralmente em flexão plantar e em
inversão. O trabalho de pontas é um exemplo típico que pode enquadrar-se no que
explica este autor.
Hamilton (1988) afirma que muitos problemas podem ocorrer em uma distensão dos
ligamentos durante um entorse de grau III (entorse severo). Esta situação ocorre
no momento em que o tornozelo deixa de seguir o alinhamento da perna por uma
questão de instabilidade, gerada provavelmente pelo déficit de força da
musculatura local para manter a posição de relevé perpendicular ao solo.
Segundo Gleim, Mchugh (1997) muitos especialistas em Medicina do Esporte
acreditam que a flexibilidade assume importante papel na ocorrência de lesões,
ainda que possa apresentar-se de diferentes formas conforme a modalidade
esportiva realizada; porém, estes autores concordam que a flexibilidade dinâmica
para lesões ainda não tem sido investigado.
PESQUISA
Relacionando-se a observação de bailarinos hipermóveis com fraqueza muscular e,
a revisão bibliográfica realizada anteriormente, conclui-se que somente através
de uma pesquisa científica seria possível considerar a possibilidade desta
questão ser verdadeira. A partir desta pesquisa bibliográfica foi realizada
também uma pesquisa de campo onde se investigou a relação entre flexibilidade e
lesão da articulação talocrural no trabalho do relevé em pontas (flexão plantar
talocrural e metatarsofalangeana sobre o solo) em bailarinas semiprofissionais
de Ballet Clássico.
Metodologia - a amostra pesquisada (composta por 8 bailarinas) foi selecionada
através de Anamnese (informações como idade, tempo de prática de dança e carga
horária e perna dominante), IMC (Índice de Massa Corporal, para certificar-se de
que não há bailarina com aumento de peso) e mensuração da amplitude de flexão
plantar talocrural de ambos os tornozelos a partir de um flexímetro (aparelho
utilizado para medir a ADM - Amplitude de Movimento Articular). Vale salientar
que os graus de flexão plantar talocrural encontrados nas bailarinas
selecionadas para compor a amostra variaram em seus valores do mais baixo ao
mais alto grau de flexibilidade, objetivando desta forma, verificar se as
bailarinas com maior grau de flexibilidade talocrural apresentarão maior
tendência a sofrer entorse em inversão na prática do relevé, do que as
bailarinas com menor flexibilidade na referida articulação. O programa
compreendeu de um período de dois meses e meio onde foram observadas (filmadas)
dez aulas (sessões) de Ballet Clássico, sendo os exercícios realizados com leve
apoio de uma barra fixa e no centro da sala sem apoio nenhum. Em aulas de Ballet,
a maior parte dos exercícios tem uma duração que varia de quinze segundos a
poucos minutos onde se trabalham contrações do tipo isométrica, concêntrica e
excêntrica, exercícios de resistência muscular localizada (principalmente em
membros inferiores), força rápida e resistência de força e flexibilidade. O
tempo de duração de cada aula varia entre 1h30min. a 2h de duração.
Também buscando coletar dados, a amostra respondeu a um questionário do tipo
fechado (informações sobre possíveis instabilidade articulares e lesões de
tornozelo pregressas) e submeteu-se a um teste de equilíbrio (Eurofit, 1988).
Resultados - a análise dos resultados, a partir dos dados coletados, foi
apresentada segundo valores encontrados a partir do teste t - student para dados
pareados, onde foram levadas em consideração as variáveis ADM talocrural, IMC,
teste de equilíbrio e número de inversões ocorridas durante a pesquisa. Em
função dos resultados obtidos, concluiu-se que o número de inversões aconteceram
com maior freqüência nos tornozelos mais flexíveis com um nível de significância
< 0,05. A partir desta tendência, constatou-se que bailarinas com aumento de
flexibilidade talocrural apresentaram um déficit de força local, ficando desta
forma mais expostas ao risco de sofrer entorse.
CONCLUSÃO
A partir dos resultados obtidos, foi possível refletir e concluir que como um
mecanismo de prevenção, seria prudente por parte dos professores de dança, uma
maior interação sobre questões anatômicas, cinesiológicas e fisiológicas do
bailarino e não somente nas questões artísticas. Um bailarino trabalhado de
forma consciente e cuidadosa na parte técnica é um bailarino com maior
probabilidade de apresentar alto rendimento em termos de performance além de um
maior tempo de vida útil durante sua carreira, não somente no período
profissional, mas desde sua iniciação na dança, momento este de suma importância
na vida de um bailarino, pois compreende a fase de seu desenvolvimento, quando
ocorrido na infância.